Split payment: nova tecnologia de cobrança de impostos pode mudar o varejo brasileiro a partir de 2027

Sistema previsto na Reforma Tributária promete automatizar o recolhimento de tributos, mas exige mudanças tecnológicas importantes de empresas e lojas.

Uma mudança tecnológica pouco visível para o consumidor pode transformar a forma como pagamentos são processados no varejo brasileiro. O chamado split payment, mecanismo previsto na Reforma Tributária, deverá permitir que parte do valor pago em uma compra seja automaticamente separada para o recolhimento dos novos tributos, reduzindo o intervalo entre a venda e o pagamento ao Fisco. A implementação está prevista para começar de maneira facultativa em 2027 e avançar para a obrigatoriedade em 2028. (UOL Economia)

Embora pareça uma alteração restrita ao sistema tributário, seus efeitos podem chegar ao caixa das lojas, aos marketplaces, aos aplicativos de pagamento e até à formação dos preços. O setor de varejo terá de adaptar sistemas de gestão, emissão fiscal, conciliação financeira e meios de pagamento para funcionar em um ambiente no qual parte do dinheiro da venda será direcionada automaticamente. Para o consumidor, a dúvida mais importante é simples: essa tecnologia pode deixar as compras mais caras?

Como o split payment vai funcionar nas compras do varejo

O split payment pode ser entendido como uma espécie de divisão automática do dinheiro no momento em que uma compra é realizada. Em vez de o estabelecimento receber integralmente o valor da venda e posteriormente calcular e recolher os tributos correspondentes, o sistema permitirá que a parcela destinada aos impostos seja separada eletronicamente, enquanto o restante segue para a empresa. A proposta está associada ao novo modelo de tributação criado pela Reforma Tributária e envolve principalmente a CBS, de competência federal, e o IBS, compartilhado entre estados e municípios. (UOL Economia)

Na prática, isso representa uma mudança importante na infraestrutura digital do comércio. Sistemas de frente de caixa, plataformas de e-commerce, adquirentes, subadquirentes, bancos, carteiras digitais, marketplaces e softwares de gestão precisarão conversar corretamente para identificar a operação, calcular os valores e realizar a divisão. Para grandes empresas, a adaptação pode ser incorporada aos projetos de transformação digital que já estão em andamento, mas pequenos e médios lojistas podem enfrentar uma curva de adaptação maior, especialmente quando utilizam soluções tecnológicas de diferentes fornecedores.

O modelo também altera uma característica importante do fluxo financeiro das empresas. Atualmente, o intervalo entre receber uma venda e pagar determinados tributos pode funcionar como parte do capital de giro de uma operação, ainda que esse dinheiro tenha uma destinação tributária futura. Com o split payment, essa disponibilidade diminui porque o imposto tende a ser separado no próprio momento da transação. Uma análise publicada nesta semana estima que as dez maiores varejistas brasileiras poderiam perder aproximadamente R$ 12 bilhões em liquidez, justamente porque o dinheiro dos tributos deixaria de permanecer temporariamente no caixa das empresas. (UOL Economia)

Esse ponto explica por que o assunto interessa tanto ao varejo. Uma empresa pode continuar vendendo o mesmo volume de produtos, mas precisar reorganizar seu capital de giro para funcionar com menos dinheiro disponível entre a venda e o recolhimento dos tributos. A tecnologia, portanto, não estará apenas automatizando uma tarefa burocrática: ela poderá modificar decisões financeiras, negociações com fornecedores e necessidade de crédito.

Por que lojas, marketplaces e shoppings terão de investir em tecnologia

A implantação do split payment chega em um momento no qual o comércio já depende fortemente de sistemas digitais. Uma venda em shopping, por exemplo, pode envolver terminal de pagamento, adquirente, banco, sistema de gestão da loja, plataforma de fidelidade e ferramentas de conciliação financeira. No comércio eletrônico, a cadeia pode ser ainda maior, envolvendo marketplace, vendedor, intermediador de pagamento, antifraude, logística e emissão fiscal. Todos esses pontos precisam funcionar de maneira integrada quando a tributação passa a depender de informações transmitidas eletronicamente.

O impacto é especialmente relevante porque o varejo brasileiro é formado por empresas de tamanhos muito diferentes. Grandes redes possuem equipes de tecnologia, departamentos fiscais e capacidade para testar novas integrações, enquanto pequenos comerciantes podem depender de sistemas terceirizados. A adaptação tecnológica terá de contemplar não apenas o cálculo correto dos tributos, mas também segurança, disponibilidade, rastreabilidade e conciliação entre o valor vendido e o dinheiro efetivamente recebido.

A própria ABRASCE vem tratando tecnologia e inovação como temas centrais para o futuro dos shopping centers. No Congresso Internacional de Shopping Centers de 2026, realizado em junho, inteligência artificial, inovação e os novos rumos do varejo estiveram entre os assuntos discutidos pelo setor. A associação reúne informações de mais de 650 shopping centers no país, mostrando a dimensão do ecossistema que precisa acompanhar essa transformação digital. (Congresso Abrasce)

Para os centros de compras, a mudança pode ter reflexos que vão além dos caixas das lojas. Administradoras precisam lidar com contratos, operações de estacionamento, alimentação, serviços, quiosques e diferentes modelos de comercialização. Quanto maior a diversidade de operações, maior tende a ser a necessidade de sistemas capazes de identificar corretamente cada transação e suas respectivas obrigações. Isso transforma infraestrutura tecnológica e integração de dados em elementos estratégicos para a operação cotidiana.

O desafio também será evitar que o consumidor perceba a modernização como uma piora na experiência de compra. Se sistemas forem mal integrados, erros de processamento, demora em pagamentos ou divergências fiscais poderão gerar problemas no atendimento. Por outro lado, uma implementação eficiente pode tornar o processo tributário mais automático, reduzir tarefas manuais e aumentar a rastreabilidade das operações.

O que muda para o consumidor e para os preços dos produtos

A principal dúvida de quem compra é se o split payment vai aumentar o preço das mercadorias. A tecnologia, por si só, não cria uma nova cobrança simplesmente por dividir automaticamente o dinheiro da operação. O objetivo do mecanismo é alterar a maneira como os tributos são recolhidos, dentro da estrutura criada pela Reforma Tributária, e não acrescentar uma tarifa tecnológica ao consumidor. Ainda assim, a transição poderá produzir efeitos indiretos sobre preços porque empresas terão de adaptar sistemas, processos e capital de giro.

O impacto final dependerá de vários fatores. Custos tecnológicos adicionais podem ser absorvidos pelas empresas, repassados parcialmente aos preços ou compensados por ganhos de eficiência. Da mesma forma, uma eventual necessidade maior de crédito para financiar o capital de giro pode elevar despesas financeiras. Por isso, não é possível afirmar que o split payment provocará uma alta generalizada nos preços do varejo.

O contexto do mercado ajuda a entender por que o tema merece atenção. O IBGE informou que o volume de vendas do comércio varejista acumulava alta de 1,7% no ano até maio de 2026, enquanto o varejo ampliado registrava crescimento de 1,3% no mesmo período. (Agência de Notícias IBGE) O comércio, portanto, já opera em um ambiente no qual consumidores e empresas acompanham cuidadosamente preços, crédito e custos, tornando qualquer alteração na estrutura financeira potencialmente relevante para decisões comerciais.

Ao mesmo tempo, a digitalização pode criar oportunidades. Sistemas mais integrados podem facilitar conciliações, reduzir erros humanos e permitir que empresas tenham uma visão mais precisa do dinheiro recebido, dos impostos e das vendas. Para marketplaces e grandes redes, a automação tributária também pode significar processos mais padronizados em operações que envolvem milhares de transações por dia.

A mudança será gradual, e esse é um dos pontos mais importantes para empresas e consumidores entenderem. A previsão é que o split payment possa ser utilizado de forma facultativa em 2027, antes de uma adoção obrigatória em 2028, dentro do cronograma de transição da Reforma Tributária. (UOL Economia) Isso significa que o período anterior à obrigatoriedade será decisivo para testes, ajustes de sistemas e identificação de problemas de integração.

Para o consumidor, a grande transformação provavelmente acontecerá nos bastidores. O pagamento continuará parecendo uma operação comum no celular, cartão ou caixa de uma loja, mas uma parte do processamento financeiro estará sendo realizada automaticamente entre sistemas de empresas, instituições financeiras e administração tributária. Para o varejo, entretanto, essa mudança será muito mais profunda: tecnologia fiscal passará a fazer parte diretamente da gestão financeira de cada venda.

O split payment mostra como o futuro do varejo brasileiro será cada vez mais dependente de infraestrutura digital que o consumidor quase não enxerga. A modernização poderá trazer mais automação e rastreabilidade, mas também exigirá investimentos e planejamento, principalmente de pequenos negócios. Para lojas de shopping, e-commerce e marketplaces, preparar sistemas com antecedência será essencial para evitar problemas quando as novas regras avançarem. E, para quem compra, o principal efeito não será um novo botão ou aplicativo, mas uma transformação silenciosa na maneira como o dinheiro de cada venda circula.

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