Fim da escala 6×1 preocupa administradoras de shoppings e pequenos lojistas

Abrasce estima perdas de até R$ 15 bilhões caso a PEC seja aprovada sem regras de transição para o setor

A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 ganhou força no Congresso Nacional em 2026 e colocou o setor de shopping centers em estado de alerta. A Proposta de Emenda à Constituição, que tramita na Câmara dos Deputados, prevê a substituição do modelo 6×1 pelo 5×2, com redução da jornada semanal de 44 para 40 horas e sem corte de salário. Para o presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), Glauco Humai, o impacto pode ser “avassalador” para o segmento, que depende fortemente de mão de obra presencial para manter as lojas abertas todos os dias da semana, incluindo domingos e feriados, um dos pilares do modelo de negócio construído ao longo de décadas.

O tamanho do impacto financeiro estimado pelo setor

Segundo estimativas da própria Abrasce, as perdas para o setor de shoppings podem chegar a R$ 15 bilhões já no primeiro ano de vigência da nova regra, caso a PEC seja aprovada sem um período de transição adequado. A entidade projeta um cenário de fechamento de lojas, aumento de demissões e migração de trabalhadores para a informalidade, especialmente entre os pequenos lojistas. Dos 115 mil comerciantes que operam dentro de shoppings no Brasil, cerca de 60% são negócios de pequeno porte, com equipes enxutas de três a cinco funcionários. Para esse grupo, a necessidade de contratar mão de obra extra para cobrir os dois dias de folga obrigatórios pode elevar os custos com pessoal em até 25%, segundo a associação, comprometendo a viabilidade financeira de operações que já trabalham com margens apertadas.

A situação é descrita como ainda mais crítica para os cerca de 16 mil quiosques espalhados pelos corredores dos empreendimentos, que costumam funcionar com apenas um ou dois funcionários. Nesses casos, o custo trabalhista pode simplesmente dobrar, o que tornaria inviável a manutenção de muitos desses pequenos negócios. Um relatório do banco BTG Pactual, focado especificamente no varejo, projeta uma queda média de 9,5% no Ebitda do setor caso a mudança seja aprovada sem ajustes, com o segmento farmacêutico sendo o mais afetado, com retração estimada em 13,6%. O mesmo levantamento aponta a necessidade de cerca de 30 mil novas contratações apenas nos setores de alimentação, farmácia, moda e comércio eletrônico para sustentar a operação nos moldes atuais.

O debate sobre transição e negociação coletiva

Especialistas em direito trabalhista têm defendido que a solução para equilibrar os interesses de trabalhadores e empresas passa pela valorização da negociação coletiva, permitindo que sindicatos patronais e de trabalhadores definam regras específicas para setores intensivos em mão de obra, como shoppings, hospitais e comércio em geral. A avaliação é de que uma transição mecânica, sem considerar as particularidades de operações que funcionam sete dias por semana, pode gerar efeitos colaterais que prejudicam justamente os trabalhadores que a proposta pretende proteger, na forma de desemprego e informalidade.

Alguns segmentos do varejo já começaram a testar alternativas antes mesmo da aprovação definitiva da PEC. Redes de supermercado firmaram acordos coletivos para fechar aos domingos em caráter experimental em algumas cidades, avaliando o impacto nas vendas antes de qualquer obrigatoriedade legal. Para os shopping centers, no entanto, o desafio é mais complexo, já que o funcionamento aos domingos é historicamente responsável por uma fatia relevante do faturamento semanal, um modelo que ganhou força no Brasil a partir da década de 1990 e hoje é considerado consolidado na rotina de lazer das famílias brasileiras.

O debate sobre a escala 6×1 deve continuar ao longo do segundo semestre de 2026, à medida que a proposta avança no Congresso. Para o setor de shoppings, a expectativa é de que o texto final inclua mecanismos de transição e flexibilização por meio de convenções coletivas, evitando um impacto abrupto sobre pequenos lojistas e quiosques. O tema segue sendo acompanhado de perto por entidades como a Abrasce, que reforça a necessidade de equilibrar os avanços sociais pretendidos pela proposta com a sustentabilidade econômica de um setor que hoje emprega mais de um milhão de pessoas em todo o país.

Fontes consultadas:

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *