Fim da escala 6×1 pode encarecer operação dos shoppings em todo o Brasil
Abrasce estima perdas de R$ 15 bilhões caso a PEC seja aprovada, enquanto Senado e governo discutem prazo de transição.
O debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1 chegou ao centro das discussões do setor de shopping centers no Brasil. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue o modelo de seis dias trabalhados por um de descanso, substituindo-o pela escala 5×2, já foi aprovada na Câmara dos Deputados em maio e agora tramita no Senado. Para lojistas, administradoras e consumidores, a pergunta natural é: o que muda na prática se a proposta for confirmada? A Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) classifica o impacto da mudança como “avassalador” para o segmento, com estimativa de perdas bilionárias só no primeiro ano de vigência. Do outro lado, o governo federal defende a alteração como uma conquista para a qualidade de vida dos trabalhadores. Entender os dois lados do debate ajuda a explicar por que o tema ganhou tanto peso em 2026.
Os argumentos da Abrasce contra a mudança na escala de trabalho
Em entrevista à CNN Money durante um evento em São Paulo no fim de junho, o presidente da Abrasce, Glauco Humai, afirmou que as perdas estimadas para o setor podem chegar a R$ 15 bilhões já no primeiro ano de vigência da PEC, segundo reportagem da CNN Brasil. Humai projeta um cenário de demissões, fechamento de lojas e migração de parte dos trabalhadores para a informalidade, já que o setor depende de mão de obra intensiva para manter o funcionamento dos empreendimentos sete dias por semana. Segundo o executivo, a entidade não discorda do mérito da mudança, mas questiona a forma como ela está sendo conduzida, sem um período de transição mais longo e em meio a um ano eleitoral.
O argumento técnico da Abrasce está concentrado nos pequenos lojistas. Do total de 115 mil comerciantes que operam em shoppings pelo Brasil, cerca de 60% são pequenos negócios, com equipes de apenas quatro ou cinco funcionários, conforme a mesma reportagem. Para esse grupo, a necessidade de contratar pessoal extra para cobrir os dois dias de folga obrigatórios pode elevar os custos com mão de obra em até 25%, segundo a entidade. A situação é descrita como ainda mais crítica entre os 16 mil quiosques instalados nos corredores dos shoppings, que muitas vezes funcionam com apenas um ou dois funcionários, e onde o custo trabalhista pode simplesmente dobrar com a nova regra.
O que diz o governo e como está a tramitação da PEC
Do lado governista, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, defende que o fim da escala 6×1 é um “caminho sem volta” para a economia brasileira, mesmo reconhecendo a resistência de parte dos empresários, segundo entrevista publicada pelo NeoFeed. Marinho afirma que a legislação já permite negociações coletivas para flexibilizar a jornada, desde que respeitado o limite de 40 horas semanais, e defende que o texto aprovado na Câmara seja mantido sem grandes alterações. O ministro também critica o argumento de que o ano eleitoral deveria postergar a votação no Senado, onde a PEC está parada sob a relatoria ligada à presidência de Davi Alcolumbre.
O texto aprovado pela Câmara prevê um período de adaptação de 14 meses para as empresas. Dois meses após a promulgação da emenda, trabalhadores contratados pela CLT já teriam direito a dois dias de descanso semanal remunerado, com a carga horária caindo de 44 para 42 horas semanais nessa primeira etapa. Um ano depois, a jornada passaria definitivamente para 40 horas, conforme detalha reportagem do Campo Grande News. Durante esse período de transição, empresas e sindicatos poderiam negociar acordos coletivos para reorganizar escalas e horários, respeitando os limites previstos na nova regra, o que abre espaço para soluções específicas em setores como shoppings, hospitais e farmácias.
Impacto para lojistas e consumidores nos próximos meses
Enquanto o Senado não conclui a votação, alguns setores já anteciparam a mudança por conta própria. Redes de farmácia como Drogaria São Paulo e Drogarias Pacheco, do Grupo DPSP, migraram suas mais de 1.600 lojas do regime 6×1 para o 5×2 ainda durante 2025, segundo levantamento da Repórter Brasil. O movimento mostra que, independentemente do desfecho no Congresso, parte do varejo já se prepara para conviver com jornadas reduzidas, ajustando processos internos antes mesmo de uma definição legal.
Para o lojista de shopping em cidades como Campo Grande, a preocupação central é a obrigatoriedade contratual de manter as portas abertas 12 horas por dia, sete dias por semana, independentemente da escala interna de funcionários. Representantes da Câmara dos Dirigentes Lojistas local estimam aumento de até 20% nos custos com mão de obra e possível repasse de até 8% nos preços ao consumidor final, conforme aponta a reportagem do Campo Grande News. Caso o cenário se confirme, o consumidor pode sentir o efeito da mudança tanto em preços quanto em eventuais ajustes de horário de funcionamento dos shoppings, tema já discutido por executivos do setor.
O fim da escala 6×1 mostra como uma decisão trabalhista pode reverberar diretamente no dia a dia dos shoppings e no bolso do consumidor. De um lado, a Abrasce defende uma transição mais longa e negociada para evitar demissões e aumento da informalidade. De outro, o governo federal trata a mudança como inevitável e benéfica para a qualidade de vida dos trabalhadores. Enquanto a PEC não é votada no Senado, o setor segue se adaptando aos poucos, com redes que já migraram para a escala 5×2 por conta própria. Para quem acompanha o varejo, vale ficar atento aos próximos passos da tramitação, já que o desfecho da proposta deve influenciar diretamente custos operacionais, preços e até os horários de funcionamento dos shoppings nos próximos anos.
Fontes consultadas:
- https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/fim-da-escala-6×1-sera-avassalador-para-shoppings-diz-abrasce/
- https://neofeed.com.br/poder/ministro-do-trabalho-diz-que-fim-da-jornada-6×1-e-caminho-sem-volta-e-critica-alcolumbre/
- https://www.campograndenews.com.br/economia/fim-da-escala-6×1-pode-elevar-custos-em-ate-20-dizem-comerciantes-da-capital
- https://reporterbrasil.org.br/2026/02/farmacia-mercado-e-lojas-acabam-com-escala-6×1-enquanto-brasilia-debate-mudancas/



