Pescado importado: uma necessidade do Brasil ou um problema a ser resolvido?

De acordo com Joel Alves, o Brasil reúne uma das maiores redes hidrográficas do planeta, mas ainda depende de importações para suprir a demanda interna por pescado. O déficit da balança comercial do setor gira em torno de um bilhão de dólares por ano, mesmo com a aquicultura em expansão constante nas últimas duas décadas. Entender essa aparente contradição, tema que interessa a quem, acompanha o setor pesqueiro, ajuda a explicar para onde caminha a produção de peixes no país.

O tamanho da produção brasileira de pescado

A piscicultura brasileira fechou 2025 com sinais de fortalecimento estrutural, segundo balanço da Associação Brasileira da Piscicultura. O primeiro semestre foi marcado por oferta elevada, o que pressionou os preços para baixo, mas o período de preços mais baixos atraiu novos consumidores para o hábito de comer peixe regularmente. A tilápia segue como a espécie mais produzida, colocando o país na posição de quarto maior produtor mundial da espécie.

O pirarucu, peixe nativo de água doce, também ganha espaço como símbolo da biodiversidade brasileira aplicada à produção comercial, um dos aspectos que ajudam a explicar o potencial de expansão do setor.

O paradoxo do consumo interno

Apesar do crescimento da oferta, o brasileiro ainda consome pouco peixe se comparado à média mundial. O país gira em torno de 10 quilos por pessoa ao ano, menos da metade do que recomenda a Organização Mundial da Saúde e bem abaixo da média global. Fatores como o hábito de consumo, o preço de proteínas concorrentes e a falta de familiaridade no preparo do pescado em casa ajudam a explicar esse número, explica Joel Alves.

A sazonalidade também pesa nessa equação. Datas como a Quaresma concentram boa parte da demanda anual, o que gera picos de preço seguidos de quedas ao longo do resto do ano. Produtores do setor apontam que ampliar o consumo fora desses períodos é um dos principais desafios para dar estabilidade à cadeia produtiva.

Joel Alves
Joel Alves

Por que a aquicultura global aponta para cima?

O mercado mundial de aquicultura foi avaliado em mais de 600 bilhões de dólares em 2025 e deve crescer a um ritmo superior a 7% ao ano até a próxima década, segundo projeções do setor. A região Ásia-Pacífico ainda concentra a maior parte dessa produção, mas o Brasil aparece como um dos países com maior potencial de expansão, graças à disponibilidade de água doce e ao clima favorável ao cultivo em praticamente todo o território.

O salmão chileno costuma ser citado como referência de uma cadeia de aquicultura sofisticada e voltada à exportação. Para quem observa o setor no Brasil, como Joel Alves, o desafio nacional é repetir esse tipo de organização em espécies nativas, aproveitando a diversidade de peixes que só existem em águas brasileiras.

O que muda na cadeia produtiva?

Investimentos recentes em genética, biosseguridade e eficiência industrial começam a aparecer nos resultados da piscicultura nacional. Protocolos preventivos de manejo e imunidade ganharam força ao longo de 2025 e devem se consolidar como padrão do setor no próximo ciclo produtivo. A expectativa entre associações do setor é de uma cadeia mais organizada e menos dependente de oscilações pontuais de mercado.

O debate regulatório sobre novas espécies aquícolas também segue no radar do setor, com decisões que impactam diretamente quais peixes podem ser cultivados comercialmente em cada região do país. A resolução desses pontos tende a abrir espaço para diversificação da produção e reduzir a dependência de poucas espécies, como acontece hoje com a tilápia.

O caminho para reduzir o déficit externo

Fechar a diferença entre o que o Brasil produz e o que consome de pescado depende de fatores que vão além da produção. Ampliar o consumo interno, investir em industrialização e facilitar o acesso do produto ao varejo estão entre as medidas discutidas por especialistas do setor. Redes de supermercados já testam parcerias voltadas a tornar cortes de peixe mais atrativos e acessíveis ao consumidor final.

Ao mesmo tempo, ganhar espaço no mercado externo depende de consolidar uma cadeia de exportação mais robusta, capaz de competir com países que já têm tradição na aquicultura voltada ao comércio internacional. Para quem acompanha essa transição de perto, entre eles Joel Alves, o Brasil reúne condições naturais raras para se tornar um protagonista global do setor, ainda que o caminho dependa de decisões estruturais de médio prazo.

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