Setor de shopping centers brasileiro bate recorde de faturamento e mantém ritmo de expansão

Censo da Abrasce aponta receita histórica de R$ 201 bilhões e reforça o apetite do mercado por novos empreendimentos no país.

O setor de shopping centers brasileiro vive um momento de contradições aparentes. Enquanto pesquisas de mercado apontam queda no fluxo de visitantes e avanço do comércio eletrônico, os números oficiais contam outra história. Segundo o Censo Abrasce 2025-2026, divulgado pela Associação Brasileira de Shopping Centers durante a Exposhopping, realizada em São Paulo no final de junho, o faturamento do setor atingiu a marca histórica de R$ 201 bilhões. O dado chama atenção justamente por contrariar o discurso recorrente de “crise do varejo físico” e levanta uma dúvida natural para quem acompanha o consumo no país: como os shoppings conseguem crescer em receita mesmo com menos gente circulando pelos corredores? A resposta envolve expansão geográfica, mudança no mix de lojas e uma gestão cada vez mais orientada por dados.

Como o faturamento recorde convive com a queda no fluxo de visitantes

A explicação para esse aparente paradoxo está na forma como o faturamento é medido. O Censo da Abrasce contabiliza o total movimentado pelas lojas instaladas em shoppings de todo o país, e não necessariamente o número de pessoas que passam pelos corredores. Levantamentos como o Índice de Performance do Varejo (IPV), elaborado pela HiPartners em parceria com a FX Data Intelligence e a F360, mostram queda de 17% no fluxo de visitas aos shoppings em 2025. A própria Abrasce reconhece um recuo mais discreto, de cerca de 6,2% nas visitas mensais entre 2019 e 2025, conforme reportagem do O Tempo. Apesar da divergência nos números, a tendência de queda no público é unânime entre os especialistas consultados pela imprensa especializada.

O que sustenta o faturamento, então, é o aumento do ticket médio e a entrada de novos lojistas com operações mais robustas. Nabil Sahyoun, presidente da Alshop (Associação Brasileira de Lojistas de Shopping), afirma que o setor cresceu 14% em número de empreendimentos entre 2019 e 2025, somando hoje 658 shoppings, com área bruta locável (ABL) 9% maior, segundo a mesma reportagem do O Tempo. Para 2026, a projeção da entidade é de faturamento de R$ 203,7 bilhões, contando com a entrada de 11 novos empreendimentos no mercado. Esse crescimento físico, mesmo diante de um público reduzido, mostra que o setor está apostando em qualidade de operação e em lojas com maior capacidade de venda por metro quadrado, e não necessariamente em volume de visitantes.

Expansão para o interior puxa o crescimento do setor

Um dos movimentos mais evidentes da retomada é a interiorização dos investimentos. Minas Gerais, por exemplo, deve inaugurar três novos shoppings ainda no primeiro semestre de 2026, ampliando a rede estadual de 49 para 52 empreendimentos, de acordo com reportagem do TNH1. Os projetos somam mais de R$ 300 milhões em investimentos e estão concentrados em Uberlândia, Lavras e Belo Horizonte, cidades fora do eixo tradicional Rio-São Paulo. O modelo escolhido para o empreendimento de Uberlândia, batizado de NV Boulevard, é o open mall, formato que mistura áreas verdes, gastronomia e espaços de trabalho compartilhado, sinal de que o conceito de shopping center está se adaptando a um público que busca mais do que compras.

Esse movimento de descentralização também aparece no discurso de administradoras como a Lumine, que participou da Exposhopping 2026 com a projeção de alta de 15% no fluxo de visitantes durante o período da Copa do Mundo, conforme divulgado pela própria Abrasce. A empresa, que administra empreendimentos como o Praça Rio Grande Shopping Center, no Rio Grande do Sul, aposta em um mix com forte presença de marcas franqueadas, hoje responsáveis por 31% das operações e 44% da ABL total do shopping gaúcho. Segundo a administradora, a maturidade do sistema de franquias no Brasil tornou esses operadores parceiros estratégicos para reduzir a vacância e aumentar o faturamento por metro quadrado, o que ajuda a explicar por que cidades médias do interior se tornaram alvo prioritário de expansão.

O que o crescimento dos shoppings significa para o consumidor

Para quem frequenta os shoppings, a expansão do setor tende a se traduzir em mais opções de lazer, gastronomia e serviços, não apenas de lojas tradicionais. A própria Abrasce e administradoras como a Lumine vêm direcionando a curadoria dos empreendimentos para o chamado “experiential retail”, conceito que prioriza experiências imersivas em detrimento do varejo puramente transacional. Essa mudança de mix também é vista como resposta à concorrência do comércio eletrônico, que tem absorvido parte das vendas que antes ficavam restritas às lojas físicas, principalmente em categorias como eletrônicos e moda.

Ainda assim, o cenário não é isento de desafios. A taxa média de vacância nos shoppings brasileiros está em 4,6%, segundo a Alshop, e o setor segue pressionado por juros altos e por uma classe média com menor poder de compra, fatores que tendem a manter o consumo seletivo nos próximos meses. Para o consumidor, isso deve significar promoções mais frequentes e campanhas voltadas a datas específicas, como já ocorre em períodos de alta demanda, caso da Copa do Mundo e das festas de fim de ano. Acompanhar a abertura de novos empreendimentos na própria região também pode ser uma forma de aproveitar condições mais vantajosas, comuns na fase de inauguração de um shopping.

O setor de shopping centers brasileiro mostra que crescimento em faturamento e queda no fluxo de visitantes podem, sim, acontecer ao mesmo tempo. A combinação de expansão para cidades do interior, maior presença de franquias e investimento em experiências de consumo explica como a receita do setor bateu recorde mesmo em um cenário de cautela econômica. Para os próximos meses, a expectativa do mercado é de que essa tendência de interiorização continue, especialmente em estados como Minas Gerais, e que o conceito de shopping como espaço de convivência ganhe ainda mais força. Quem acompanha o varejo nacional deve observar com atenção os números do segundo semestre, período historicamente mais forte para o setor, para confirmar se o ritmo de expansão se mantém.

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