Como a inteligência artificial já está mudando a rotina dos shopping centers no Brasil

De assistentes virtuais que negociam contratos a sistemas de personalização, a IA passa a operar como infraestrutura dos shoppings.

A inteligência artificial deixou de ser promessa distante para se tornar parte da rotina operacional dos shopping centers brasileiros. De ferramentas que ajudam a fechar contratos de aluguel a sistemas que personalizam ofertas para cada perfil de consumidor, a tecnologia avança tanto nos bastidores da gestão quanto na experiência de quem frequenta os corredores. A dúvida que fica para lojistas, administradoras e consumidores é até onde essa transformação deve chegar e o que ela representa na prática do dia a dia. Levantamentos recentes do setor, somados a casos concretos de administradoras brasileiras, ajudam a entender como a IA está sendo usada hoje, e não apenas como tendência para o futuro.

Inteligência artificial entra na gestão comercial dos shoppings

Um exemplo concreto vem do Grupo AD, segunda maior administradora de shoppings do país, com 44 empreendimentos e mais de 1 milhão de metros quadrados de área bruta locável. A empresa desenvolveu uma assistente virtual batizada de Lug, inspirada em iniciativas como a Lu, do Magazine Luiza, para automatizar negociações de locação de lojas e quiosques, segundo reportagem do NeoFeed. Desde o início do projeto-piloto, a geração de leads qualificados, ou seja, lojistas com maior potencial de fechar negócio, aumentou 38%, segundo dados divulgados pela própria companhia.

O impacto da ferramenta nos números de fechamento de contratos também chamou atenção do fundador e CEO do Grupo AD, Helcio Povoa, que descreve a inteligência artificial como fundamental para o crescimento e a redução de custos da empresa. Dos mais de 1.600 novos contratos assinados em 2025 pela administradora, 22% vieram do canal digital AlugueOn, e a introdução da assistente virtual aumentou em 56% a participação desse canal dentro do volume total de conversões, conforme a mesma reportagem. O caso mostra que a IA já deixou de atuar apenas no atendimento ao consumidor final e passou a influenciar diretamente a relação entre administradoras e lojistas.

Dados e personalização redefinem a experiência de compra

Além da gestão comercial, a inteligência artificial vem ganhando espaço na forma como os shoppings se relacionam com quem frequenta seus corredores. Segundo artigo publicado na Brazil Economy, de autoria do executivo Marcelo Rennó, COO da incorporadora Sá Cavalcante, o sucesso de um shopping em 2026 não deve ser medido apenas pela taxa de ocupação ou pelo fluxo de visitantes, mas pela capacidade de transformar dados em decisões mais precisas. A consolidação de programas de fidelidade como infraestrutura estratégica, e não apenas como ferramenta promocional, é apontada como uma das mudanças mais relevantes para os próximos anos.

Essa personalização é viabilizada por ferramentas de CRM, analytics e inteligência artificial que permitem construir jornadas de consumo mais relevantes para cada perfil de cliente, segundo o mesmo artigo. Na prática, isso significa campanhas mais direcionadas e experiências que aumentam o tempo de permanência e a recorrência de visitas ao shopping. O texto destaca ainda que a IA mais relevante para o setor não é necessariamente aquela que aparece de forma visível ao consumidor, mas a que atua como infraestrutura invisível, organizando dados e antecipando comportamentos de compra nos bastidores da operação.

Como o varejo brasileiro está adotando a inteligência artificial na prática

Um estudo conduzido pela CRMBonus e pela Wake, batizado de IA Survey 2026 e realizado com 307 executivos do varejo brasileiro, mostra que 79% dos profissionais reconhecem que a inteligência artificial já tem impacto significativo no negócio ou terá em curtíssimo prazo, segundo reportagem publicada pela CRMBonus. Apesar do reconhecimento, a pesquisa aponta que 46% das empresas enfrentam falta de conhecimento interno como principal barreira para avançar com a tecnologia, na frente do custo de implementação e da dificuldade de integração com sistemas já existentes.

O levantamento também chama atenção para uma mudança no comportamento de busca do consumidor, que já consulta assistentes de inteligência artificial para decidir o que comprar e comparar marcas antes de visitar uma loja física. Apenas 9% das empresas entrevistadas afirmam ter alguma estratégia ativa para aparecer nessas recomendações, o que representa uma lacuna competitiva relevante para o varejo e para os próprios shoppings que abrigam essas marcas. Casos como o do Magazine Luiza, que reconstruiu parte do catálogo de produtos para ser interpretado por modelos de inteligência artificial, indicam o caminho que outras redes devem seguir nos próximos meses.

A inteligência artificial nos shopping centers brasileiros já não é mais um conceito distante, mas uma ferramenta presente em decisões que vão da negociação de contratos de locação à forma como o consumidor é atendido dentro das lojas. Casos como o do Grupo AD mostram resultados concretos em geração de leads e fechamento de negócios, enquanto pesquisas recentes indicam que o setor ainda tem um caminho longo para aproveitar todo o potencial da tecnologia. Para administradoras, lojistas e consumidores, acompanhar essa transformação deixou de ser opcional. Quem conseguir transformar dados em decisões mais rápidas e personalizadas tende a sair na frente em um mercado cada vez mais disputado entre o ambiente físico dos shoppings e o avanço constante do comércio digital.

Fontes consultadas:

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *